terça-feira, maio 09, 2006

O táxi e a noite

Haverá pouca gente por quem eu sinta mais temor* do que os taxistas da noite. Estou convicta de que todos os taxistas da noite são loucos alucinados, ou por ingestão de substâncias perigosas, ou por uma quebra no fio de sanidade que algum dia os ligou (ou não) ao mundo das pessoas mais ou menos normais.

Se apanharem um táxi à noite, reparem bem na pessoa que vai atrás do volante. Se estiver já no fim do turno, é possível que ostente uma descontracção que os olhos brilhantes e avermelhados mergulham em suspeita. Poderá até levar um recipiente na mão de onde vai sacando uns golos. Nalguns casos, até pode já levar um amigo no lugar do morto, concedendo que "eu até já tinha acabado o serviço, mas vocês têm um ar porreirinho e decidi levá-las."

Encontrando-se no domínio de um veículo motorizado, numa cidade de Lisboa que, ao contrário do que sucede nas horas diurnas, tem a maior parte das suas ruas vazias, o taxista da noite transfigura-se e lança-se a sobrevoar as setes colinas; transforma-se em corredor de ralis, gabando-se muitas vezes das estonteantes velocidades que consegue atingir e deixando os passageiros com profundos ataques de fé, a rezar de olhos fechados, agarrados à porta do automóvel.

Não é raro apanhar-se algum com súbitos ataques de fúria, que repentinamente lança toda a sua bílis racista para o ar, cascando violentamente nos imigrantes ou quem quer que seja que tenha a infelicidade de lhe servir de bode expiatório. Fica-se sem se poder argumentar muito, não vá o senhor querer espetar-nos num poste aliatório, só porque não partilhamos do mesmo ódio.

Na linha da fúria, há aqueles que teimam connosco que sabem perfeitamente onde fica o destino da viagem, não fossem eles não conhecerem a sua cidade, apesar de nós estarmos absolutamente seguros de que é noutro sítio totalmente diferente. Pedida uma viagem para o "Parreirinha", chega o táxi à entrada do "Cabacinha". Perante os olhares espantados dos clientes, o condutor insiste com todas as forças do seu ser que ali é o "Parreirinha" pedido, apesar de por cima da porta do local, umas letras garrafais anunciarem orgulhosamente "O Cabacinha - casa de fados". E ai de quem lhe aponte a evidência, ou não conhecesse ele a sua cidade!

Se por acaso um taxista da noite vos parecer minimamente são, não se iludam: ou a viagem curta não lhe deu suficiente tempo para se manifestar, ou quis o acaso que ele trocasse um dos habituais turnos diurnos por um turno nocturno. Porque, de resto, medo. Muito medo. Em podendo, mais vale ir mesmo a pé.

*leia-se pavor e não sentimento profundo de reverência

7 comentários:

Rui disse...

É verdade, há uns que são mesmo assim, sem tirar nem pôr.
Apesar do adiantado da hora, reparo como estiveste atenta a todos os detalhes (o pavor que te despertou?).

Proponho-te um exercicio mental: senta-te ao volante do táxi e imagina as histórias que terias para contar, andando na noite a transportar quem se solta na cidade.

bonifaceo disse...

Hum, 23h é suficientemente de noite? É à hora a que costumo apanhar o taxi no centro de camionagem... até agora não tenho muito que me queixar, só mesmo por vezes do preço.
Beijo.

marsalho disse...

Curiosamente, isso acontece-me também em pleno dia. Suspeito que o problema seja mesmo dos taxistas...

Camélia disse...

Por acaso já passei por uma experiência do mesmo tipo: deviam ser umas 5 da manhã e eu estava borradinha, porque o parvalhão do taxista colocou uma música do Julio Inglesias e passou o tempo todo a olhar p/trás e "então? Gosta do Júlio?".

Oh menina, a partir dessa noite jurei que só tornaria a sair se tivesse boleia p/casa, senão AZAR!

ISA disse...

os gajos sao loucos mesmo... e os que adormecem nos sinais vermelhos??? bjs

Mipo disse...

Rui, é capaz de ser um exercício engraçado... obrigada pela sugestão!

Boni, estava a falar assim mais das entranhas da noite

Marsalho, concedido que ele há muito louco a guiar táxi (é só uma pessoa imaginar-se todo o santo dia no meio do pára-arranca lisboeta - deve quebrar até os mais fortes), mas insisto que os da noite são requintadamente insanos

Camélia, e gostas? Do Júlio? :-D

Isa, antes nos sinais vermelhos que nos verdes...

Camélia disse...

Do Júlio não gosto, já o filho ainda era capaz de lhe engomar uma camisa ou duas ;) (o Enrique, o Enrique!)