terça-feira, julho 04, 2006

A falta que depois vou sentir disto:


O meu rés-do-chão a contar vindo do céu vai deixar de ser meu. O tempo pelo qual foi a minha toca não chega aos cinco dedos de uma mão, mas as saudades que eu vou ter... acho até que me vou esquecer do que é palmilhar cinco lances de escadas com oito quilos de compras; dos palavrões do homem que entrega a pizza de vez em quando; da inexistência de lugares para estacionar; da água que se escorreu lá para dentro durante dois anos; do calor de ananases e da humidade pantanosa; da necessidade de empilhar convidados no chão, a jantar de prato na mão, porque onde cabem 5 se chegam a enfiar 16...

Se me sentar na sala e tentar apagar aquilo que me foi emprestado, fico com um sofá, uma mesa e um candelabro; os livros teriam de ficar amontoados no chão. No quarto só sobrava uma secretária e o computador obsoleto. Se quiser devolver toda a mobília aos legítimos donos, é provável que tenha de mandar cadeiras para os Estados Unidos, estantes para Espanha, possivelmente, uma mesa para Macau e espalhar a cama e outras peças pela cidade de Lisboa.

A possibilidade de fazer uma "lista de solteira" quando me mudei para lá ainda se aflorou, mas a lata não chegava. Se fosse hoje, talvez a fizesse. Sempre me pareceu escandalosamente injusto que duas pessoas consigam ter casa feita só porque se casam, enquanto que alguém que vá viver sozinho se tenha de desenrascar - afinal, é só um a ter de fazer tudo. O lado bom é que acabei por ter a presença permanente de uma série de pessoas, personificadas em móveis e acessórios, que, quando se apresentam em carne e osso, se sentem à partida em casa.

Para fugir a uma das coisas que estranhamente me deprimem mais, andei a coleccionar cupões do carrefour para comprar um serviço completo por metade do preço. Haverão poucas coisas que me entristeçam mais do que ver pratos desirmanados a conviver timidamente à mesa. Um padrão floral a olhar de esguelha para uma travessa de riscas, observados por uma melancólica cor opaca sugerem-me sempre um anómalo sentimento de abandono. Não deixa de ser uma sensação desconcertante, funcionando eu tão bem com o caos, mas, para evitá-la, tratei de arranjar o equipamento necessário para que 12 pessoas possam partilhar uma refeição sem implicar com a minha sensível (e talvez bizarra) estética.

Resta-me um punhado de meses para queimar os últimos cartuchos antes de começar a encaixotar.

11 comentários:

Camélia disse...

Moro mesmo em frente a ti...do outro lado do rio. Partilho a mesma vista do Cristo-Rei e da ponte. Da próxima vez que abrires a janela acena :)

PS: o nosso "buraquinho" é o nosso "buraquinho". Pode ter dezenas de falhas, amontoados e ser pequenino, mas é nosso. Mas é certo que se tivermos de abandoná-lo, logo arranjamos outro que o substitua..

cinderela disse...

Vamos ter tantas saudades tuas que ainda me ofereço para fazer uma colecta para que, qdo regressares, tenhas esse tão almejado conjunto de pratos e travessas todos igualinhos!! ;)

Me disse...

Xôoooo nostalgia

"νόστος = nostos = returning home, άλγος = algos = pain/longing

to refer to "the pain a sick person feels because he wishes to return to his native land, and fears never to see it again"

Em ingalês e tudo que cá eu sou uma passoa chinha de nívle.

Ou como diria o outro "styska se mi po tobe"...

Vão existir muitas ausências a suportar... por ser por amor que vamos, é também o amor em tantas formas que deixamos para trás... é melhor parar com isto que ainda estou a trabalhar e vou desatar num berreiro desgraçado...

marta disse...

Sofrimento por antecipação?! nada disso. é gozar os últimos cartuchos até não dar mais ;)

Osga Esparramada disse...

EI PESSOAL!!!
OIÇAM LÁ: FALAM, FALAM, FALAM... E NINGUÉM OFERECE AJUDA PARA ENCAIXOTAR??? MAS AFINAL QUE AMIZADES SÃO ESTAS, EIN???

A OSGA OFERECE AS SUAS 4 PATAS ESPARRAMADAS PARA EMBRULHAR, DESEMBRULHAR, ENCAIXOTAR, PARTIR, LEVAR, ENFIM... PARA O QUE NECESSITES MIPO!!!
BJS

P.S. A Osga já começou a juntar uns cobres para te ir visitar na terra do pó vermelho

ISA disse...

mt tristonho este post. vamos lá aproveitar até ao fim. bjs

Mipo disse...

credo! Não é dramático! Só estava um bocadinho nostálgica! É que eu tenho v de volta, mas a casa não. Assim que estiver noutra, desligo.

Mas agora é que fui descoberta... ali, preto no branco, no comentário da Me: "(...) the pain a sick person feels" - e eu com tanto trabalhinho para fingir que sou sã! :-D

@ndrei@zul disse...

até eu acho q vou sentir saudades do teu cantinho e de jantares e partilhas lá passados mas outra vida nos espera agora e ainda outra qd regressarmos por isso é realmente aproveitar os últimos cartuchos.. q tal uma byebye party da tua casa e rebentar com a sua lotação máxima?!
baci

Rui disse...

Se for preciso ajuda para fazer baixar à rua a mobilia, eu conheço várias empresas de mudanças...

Mas vais embora? A maionese vai ficar sem letras?
Onde é que está o livro de reclamações?

Anónimo disse...

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Anónimo disse...

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